O sofrimento
Pra. Maria Luísa Duarte Simões Credidio
O
sofrimento pode ser o caminho através do qual chegamos às nossas
verdades. A estrada pela qual alcançamos a maturidade atravessa,
necessariamente, a escuridão e a solidão. A escuridão porque sofrer
implica perder as referências, desdenhar das explicações, questionar as
certezas e aventurar perguntas. A escuridão é o momento quando não
caminhamos porque vemos, mas porque intuímos, recordamos e temos fé.
Intuímos o rumo certo pelo tanto que já caminhamos, recordamos as
experiências aprendidas em momentos semelhantes no passado e andamos por
fé, que supera as trevas, prescinde de explicações e transcende as
certezas.
A solidão é imprescindível na trilha do sofrimento. A
dor pode ser compartilhada, mas jamais transferida. Pode ser percebida,
mas não capturada. Pode até ser escondida, mas nunca suprimida. Quem
sofre, sofre sempre em solidão. Não necessariamente porque lhe falta boa
e providencial companhia, mas porque todo sofrimento pessoal, em sua
dimensão mais profunda e essencial é intransferível. O sofrimento tem
sua realidade particular, e não podia ser diferente: cada um sofre por
uma razão, é vitimado em áreas distintas do ser, por motivos diversos e
com respostas as mais variadas, num dégradé de resiliência que vai da
meninice do chororô ao heroísmo quase estóico, incluído entre os tons
das cores a grandeza da fé, resignada e esperançosa, e por isso engajada
e mobilizadora.
O sofrimento desperta para o ético e o estético.
Convoca virtudes adormecidas a que subam ao palco: coragem,
perseverança, paciência, honradez, respeito à vida. Possibilita o
lapidar do caráter, apara arestas,
harmoniza as formas, descortina a beleza escondida na frieza do
coração. O sofrimento quebranta orgulhosos, vaidosos e prepotentes, faz
desmoronar intransigentes, legalistas e moralistas. Como o martelo do
escultor, retira os excessos da pedra e dá à luz o belo, o sublime, o
majestoso.
Quem sofre descobre seus limites, identifica
verdadeiras amizades, vislumbra novos horizontes, abre a mente para
novas verdades e o coração para novos amores. O sofrimento produz
compaixão, evoca misericórdia, gera solidariedade. O sofrimento cria
caminhos para arrependimentos e confissões, subverte juízos e sentenças,
possibilita aproximações e reconciliações.
O sofrimento coloca
homens, mulheres, velhos e crianças de joelhos. Faz com que os olhos
procurem os céus. Dilata a alma para o mistério, conclama o espírito
para inefável, inspira poesias e canções, faz surgir nos lábios o
perfeito louvor. Quem sofre aprende a perdoar e pedir
perdão. Tem a oportunidade de colocar o rosto no chão, em clamor e
oração. O sofredor jamais chora em vão. Deus habita também a sombra e a
escuridão.
O sofrimento é o ônus do viver, o custo do amor, a
paga pelo crescimento, o preço da maturidade. Viver é muito perigoso.
Amar é muito precioso. Crescer é muito doloroso. Amadurecer é muito
custoso. Crer é coisa de teimoso. O sofrimento diminui o poder da morte,
dissolve a crueldade da indiferença, envergonha a pequenez da alma,
desmascara o mundo de mentirinha da ingênua infância, quebra a maldição
da incredulidade. Aceitar a realidade e inevitabilidade do sofrimento é
escolher a vida, decidir amar, optar pela plenitude, apostar na fé. |
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