Quero saber quem transformou princípios cristãos em religião!
Vejo, com imensa tristeza, que estamos seguindo ladeira abaixo. Saímos do cristianismo para a cristandade,
da cristandade para o protestantismo, do protestantismo para o
evangelicalismo, do evangelicalismo para o denominacionalismo, do
denominacionalismo para o comunidadismo, do comunidadismo para o institucionalismo.
Tudo
isso começou quando Constantino tornou o cristianismo a religião
oficial do império. Dali adiante, clero e templos passaram a funcionar
como aparelhos políticos de extensão do poder de Roma. Os guias
espirituais deixaram de existir e passaram a ser o imperador e os
templos ficaram mais parecidos com prefeituras do que com casas de
oração. E ai a coisa degringolou numa mistura der sexo, poder e
dinheiro, que só veio perder para o trio sexo, drogas e rock’n roll na
década de 60.
Por volta de 1500, enquanto Cabral descobria o Brasil, a cristandade
descobria o protestantismo e Lutero e Calvino e juntamente com seus
navegadores, levaram a nau da igreja ao movimento de antítese à
cristandade. Quero esclarecer que o protestantismo, como o próprio nome
diz, foi um movimento de protesto, não uma proposta de religião.
Foi uma reação à cristandade e suas cruzadas, em que se matavam milhares
de pessoas e crianças em nome de Deus; foi uma reação aos cofres
abarrotados da Igreja que nada fazia de social; foi uma reação à
inquisição, que não permitia que ninguém pensasse de forma diferente.
Foi então, uma reação teológica conceitual, que aos poucos desembocou em
propostas e experiências comunitátrias. Aí
aconteceu o nascimento do denominacionalismo.
Saímos
do cristianismo para a cristandade, daí para o protestantismo e logo
passamos ao denominacionalismo. E o carro vai descendo ladeira abaixo,
sem freios, pois agora já não falamos mais em fé cristã, mas em
protestantismo, metodismo, batistismo, presbiterianismo e outros ismos
mais. Cada uma dessas denominações apresenta sua declaração doutrinária,
opção de governo, estrutura eclesial, código de ética e volúpia
expansionista. Lutam para ver quem tem na mão a melhor versão do
cristianismo.
Mas,
na carona do liberalismo, demos outro salto, outra escorregada.
Chegamos à livre regulamentação do mercado gospel, e as denominações
começaram a se fragmentar, vítimas da multiplicação de empreendedores
religiosos. Então temos que assim como o sonho de todo brasileiro classe
média é deixar de ser empregado e se tornar patrão, o sonho da ovelha
da classe média é deixar de ser ovelha e se tornar pastor, bispo,
apóstolo, rei, sei lá...
Do
denominacionalismo chegamos aos comunidadismo, fenônemo caracterizado
pela infinidade de igrejas independentes. Os empreendedores cristãos
rompem com as multinacionais e megacorporações da fé e criam sua igreja,
sua comunidade. Normalmente usando o nome da que pertenciam. Então são
Metodistas Livres, Presbiterianos Renovados, Batistas Independenetes e
por aí afora. Outro dia fui assistir à unção de um amigo cuja Igreja
chamava-se Igreja Evangélica Pentecostal Assembléia de Deus
Betesta Libertada e da Cruz! Cruz credo! São líderes espirituais
autonomeados que reúnem pessoas à sua volta, à volta de sua
doutrina-opinião, de sua visão-idéia-brilhante, seu
carisma-personalidade. E de suas doenças-doenças mesmo!
Surge,
a partir de então, a necessidade de defender suas distinções, as razões
porque romperam com as igrejas de origem. Ficam obcecados em defender
pontos de discordância e, aos poucos, a antítese vira tese e aquilo que
era secundário ao Evangelho vira aspecto essencial de doutrina da nova
comunidade. O nome da comunidade passa a ser mais valorizado que sua
mensagem. E, quando alguém abre os olhos, a comunidade virou
instituição-griffe. Ou seja, a vaca foi pro brejo!
Daí
para adiante, os testemunhos passam a ser antes de depois da igreja A,
antes e depois da Igreja B, em vez de antes e depois de Cristo! E aí
começam os apelos financeiros, para nosso programa de rádio, que existe não para que o evangelho seja pregado, mas para que outras pessoas possam ter acesso “à visão que Deus nos deu”.
É quando chegamos aos institucionalismo, o pé da ladeira. Você pode
pensar que está no fundo do poço. Mas espere até ver quais são os seis
filhos do institucionalimo!
O primeiro é o dogmatismo, ou seja, a absolutização de uma versão doutrinária em detrimento da própria verdade que se pretende interpretar. O dogmatismo
nasceu quando a defesa de um credo foi tão contumaz que a declaração de
fé substitui a necessidade de revelação. O que antes era uma
interpretação da Palavra de Deus, passa a ser numa instituição, a única
verdade possível.
O segundo filho do institucionalimo é o moralismo.
Ou seja, a absolutização da moral em detrimento da vida em santidade.
Ele veio ao mundo pela mãos da necessidade de padronização de
identidade. E para quem deseja a uniformidade das consciências, nada
melhor que padronizar comportamentos. Tenho uma amiga, a Sueli Monteiro,
que chama a isso de “lobotomização dos fiéis” e aqueles que a isso se submetem, “vaquinhas de presépio”.
O terceiro filho do institucionalismo é o ritualismo,
que vem a ser a absolutização de um processo litúrgico em detrimento da
devoção do coração. A expressão devocional fica restritra, engessada ao
conjunto dia-hora-endereço- liturgia. Essa também é uma grande sacada,
pois o que pode ser mais poderoso do que o universo simbólico, para
aprisionar fiéis? Esses três primeiros filhos do institucionalimo vem
com cic e rg espiritual, ou seja, livro- capítulo-versículo, pois é
possível justificar doutrina, moral e culto com a Bíblia na mão.
Mas há mais três filhos do institucionalimo, que obedecem à lógica.
O quarto filho é o tradicionalismo, a absolutização de uma experiência histórica em detrimento da liberdade do Espírito. Sabe aquela conversa “aqui sempre fizemos assim”?
Ela é na verdade a afirmação, muito sutil, de que o Espírito parou de
soprar desde que plantamos nossa instituição. O Espírito deixa de ser um
vento, para se tornar um ventilador barato, que na maioria das vezes
nem chega a girar... E claro, quem partiu para um processo desses, para
um caminho autocentrado e independente, não pode mudar de opinião, não
pode rever conceitos, pois fazê-lo significa questionar a gênese. E aí
quem questiona a própria história, questiona a si mesmo: “Guru
autonomeado nunca está errado!”
O quinto filho do institucionalismo é o sectarismo, a absolutização de um grupo de adeptos em detrimento do Corpo de Cristo- os filhos do Reino. Os sectários dizem que “ se
você não crê e não se comporta como nós, não cultua a Deus do nosso
jeito, então não é um dos nossos. E se você não é um dos nossos, e nós temos a verdade,
então você tem a mentira, está no erro, ou em rebeldia contra a visão e
a unção que Deus nos deu. Nesse caso, se não se tornar um de nós, vai
para o inferno!”
Surge, em decorrência do sectarismo, o último filho do institucionalismo, o proselitismo.
Ele é a absolutização do marketing religioso institucional, em
detrimento do ministério do Espírito que convence do pecado e revela o
Cristo.
Não
tenho dúvidas de que nem em determinadas circunstâncias, o estilo de
vida evangélico é absolutamente distinto do estilo de vida cristão. Uma
espiritualidade dissociada da vida e encravada no solo da religião
institucionalizada conspira contra os interesses do Reino de Deus e
certamente contra as intenções de Jesus de Nazaré ao convidar as pessoas
a andar na simplicidade do discipulado, em que os compromissos radicais
diziam respeito ao ser, e ser em Deus, o Pai nosso. Compromissos que não
se destinavam a uma instituição, mas ao Reino de Deus. Compromissos que
não privilegiavam o universo religioso, mas a vida, o mundo a terra e
clamavam que fosse feita a vontade de Deus. Compromissos que não
sobreviviam às custas do sectarismo proselitista dos padrões
dogmáticos, moralistas e ritualistas, mas sim no fundamento do perdão e
da graça de Deus, possíveis apenas na mesa fraterna onde se reparte o
pão de cada dia. Enfim, compromissos que se rebelavam contra toda e
qualquer dominação e exploração do ser humano, pois o Reino de Deus é o
reino onde somos livres do mal, do maligno e da malignidade, onde quer
que se manifestem.
Meu amigo, o Pr. Ariovaldo Ramos, em seu texto já publicado aqui, desabafou: ”Não quero mais ser evangélico!”. Pedindo licença, agora é minha vez: “Quero voltar a ser um cristão!”
PS: Para aqueles que ignoram o significado da palavra, cristão que dizer pequeno Cristo.Precisa mais?
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