LADEIRA ABAIXO
 
Pra. Maria Luísa Duarte Simões Credidio,
 Ed René Kivitz
 
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            Quero saber quem transformou princípios cristãos em religião!   
         Vejo, com imensa tristeza, que estamos seguindo ladeira abaixo. Saímos do cristianismo para a cristandade, da cristandade para o protestantismo, do protestantismo para o evangelicalismo, do evangelicalismo para o denominacionalismo, do denominacionalismo para o comunidadismo,   do comunidadismo para o institucionalismo.
        Tudo isso começou quando Constantino tornou o cristianismo a religião oficial do império. Dali adiante, clero e templos passaram a funcionar como aparelhos políticos de extensão do poder de Roma. Os guias espirituais deixaram de existir e passaram a ser o imperador e os templos ficaram mais parecidos com prefeituras do que com casas de oração. E ai a coisa degringolou numa mistura der sexo, poder e dinheiro, que só veio perder para o trio sexo, drogas e rock’n roll na década de 60.
         Por volta de 1500, enquanto Cabral descobria o Brasil, a cristandade descobria o protestantismo e Lutero e Calvino e juntamente com seus navegadores, levaram a nau da igreja ao movimento de antítese à cristandade. Quero esclarecer que o protestantismo, como o próprio nome diz, foi um movimento de protesto, não uma proposta de religião. Foi uma reação à cristandade e suas cruzadas, em que se matavam milhares de pessoas e crianças em nome de Deus; foi uma reação aos cofres abarrotados da Igreja que nada fazia de social; foi uma reação à inquisição, que não permitia que ninguém pensasse de forma diferente. Foi então, uma reação teológica conceitual, que aos poucos desembocou em propostas e experiências comunitátrias.  Aí aconteceu o nascimento do denominacionalismo.
         Saímos do cristianismo para a cristandade, daí para o protestantismo e logo passamos ao denominacionalismo. E o carro vai descendo ladeira abaixo, sem freios, pois agora já não falamos mais em fé cristã, mas em protestantismo, metodismo, batistismo, presbiterianismo e outros ismos mais. Cada uma dessas denominações apresenta sua declaração doutrinária, opção de governo, estrutura eclesial, código de ética e volúpia expansionista. Lutam para ver quem tem na mão a melhor versão do cristianismo.
         Mas, na carona do liberalismo, demos outro salto, outra escorregada. Chegamos à livre regulamentação do mercado gospel, e as denominações começaram a se fragmentar, vítimas da multiplicação de empreendedores religiosos. Então temos que assim como o sonho de todo brasileiro classe média é deixar de ser empregado e se tornar patrão, o sonho da ovelha da classe média é deixar de ser ovelha e se tornar pastor, bispo, apóstolo, rei, sei lá...
         Do denominacionalismo chegamos aos comunidadismo, fenônemo caracterizado pela infinidade de igrejas independentes. Os empreendedores cristãos rompem com as multinacionais e megacorporações da fé e criam sua igreja, sua comunidade. Normalmente usando o nome da que pertenciam. Então são Metodistas Livres, Presbiterianos Renovados, Batistas Independenetes e por aí afora. Outro dia fui assistir à unção de um amigo cuja Igreja chamava-se Igreja Evangélica Pentecostal Assembléia de Deus Betesta Libertada e da Cruz! Cruz credo! São líderes espirituais autonomeados que reúnem pessoas à sua volta, à volta de sua doutrina-opinião, de sua visão-idéia-brilhante, seu carisma-personalidade. E de suas doenças-doenças mesmo!
         Surge, a partir de então, a necessidade de defender suas distinções, as razões porque romperam com as igrejas de origem. Ficam obcecados em defender pontos de discordância e, aos poucos, a antítese vira tese e aquilo que era secundário ao Evangelho vira aspecto essencial de doutrina da nova comunidade. O nome da comunidade passa a ser mais valorizado que sua mensagem. E, quando alguém abre os olhos, a comunidade virou instituição-griffe. Ou seja, a vaca foi pro brejo!
         Daí para adiante, os testemunhos passam a ser antes de depois da igreja A, antes e depois da Igreja B, em vez de antes e depois de Cristo! E aí começam os apelos financeiros, para nosso programa de rádio, que existe não para que o evangelho seja pregado, mas para que outras pessoas possam ter acesso “à visão que Deus nos deu”. É quando chegamos aos institucionalismo, o pé da ladeira. Você pode pensar que está no fundo do poço. Mas espere até ver quais são os seis filhos do institucionalimo!
         O primeiro é o dogmatismo, ou seja, a absolutização de uma versão doutrinária em detrimento da própria verdade que se pretende interpretar. O dogmatismo nasceu quando a defesa de um credo foi tão contumaz que a declaração de fé substitui a necessidade de revelação. O que antes era uma interpretação da Palavra de Deus, passa a ser numa instituição, a única verdade possível.
         O segundo filho do institucionalimo é o moralismo. Ou seja, a absolutização da moral em detrimento da vida em santidade. Ele veio ao mundo pela mãos da necessidade de padronização de identidade. E para quem deseja a uniformidade das consciências, nada melhor que padronizar comportamentos. Tenho uma amiga, a Sueli Monteiro, que chama a isso de “lobotomização dos fiéis”  e aqueles que a isso se submetem, “vaquinhas de presépio”.
         O terceiro filho do institucionalismo é o ritualismo, que vem a ser a absolutização de um processo litúrgico em detrimento da devoção do coração. A expressão devocional fica restritra, engessada ao conjunto dia-hora-endereço- liturgia. Essa também é uma grande sacada, pois o que pode ser mais poderoso do que o universo simbólico, para aprisionar fiéis? Esses três primeiros filhos do institucionalimo vem com cic e rg espiritual, ou seja, livro- capítulo-versículo, pois é possível justificar  doutrina, moral e culto com a Bíblia na mão.
         Mas há mais três filhos do institucionalimo, que obedecem à lógica.
          O quarto filho é o tradicionalismo, a absolutização de uma experiência histórica em detrimento da liberdade do Espírito. Sabe  aquela conversa “aqui sempre fizemos assim”? Ela é na verdade a afirmação, muito sutil, de que o Espírito parou de soprar desde que plantamos nossa instituição. O Espírito deixa de ser um vento, para se tornar um ventilador barato, que na maioria das vezes nem chega a girar... E claro, quem partiu para um processo desses, para um caminho autocentrado e independente, não pode mudar de opinião, não pode rever conceitos, pois fazê-lo significa questionar a gênese. E aí quem questiona a própria história, questiona a si mesmo: “Guru autonomeado nunca está errado!”
         O quinto filho do institucionalismo é o sectarismo, a absolutização de um grupo de adeptos em detrimento do Corpo de Cristo- os filhos do Reino. Os sectários dizem que “ se você não crê e não se comporta como nós, não cultua a Deus do nosso jeito, então não é um dos nossos. E se você não é um dos nossos, e nós temos a verdade, então você tem a mentira, está no erro, ou em rebeldia contra a visão e a unção que Deus nos deu. Nesse caso, se não se tornar um de nós, vai para o inferno!”
         Surge, em decorrência do sectarismo, o último filho do institucionalismo, o proselitismo. Ele é a absolutização do marketing religioso institucional, em detrimento do ministério do Espírito que convence do pecado e revela o Cristo.
         Não tenho dúvidas de que nem em determinadas circunstâncias, o estilo de vida evangélico é absolutamente distinto do estilo de vida cristão. Uma espiritualidade dissociada da vida e encravada no solo da religião institucionalizada conspira contra os interesses do Reino de Deus e certamente contra as intenções de Jesus de Nazaré ao convidar as pessoas a andar na simplicidade  do discipulado, em que os compromissos radicais diziam respeito ao ser, e ser em Deus, o Pai nosso. Compromissos que não se destinavam a uma instituição, mas ao Reino de Deus. Compromissos que não privilegiavam o universo religioso, mas a vida, o mundo a terra e clamavam que fosse feita a vontade de Deus. Compromissos que não sobreviviam às custas do sectarismo proselitista dos padrões dogmáticos, moralistas e ritualistas, mas sim no fundamento do perdão e da graça de Deus, possíveis apenas na mesa fraterna onde se reparte o pão de cada dia. Enfim, compromissos que se rebelavam contra toda e qualquer dominação e exploração do ser humano, pois o Reino de Deus é o reino onde somos livres do mal, do maligno e da malignidade, onde quer que se manifestem.
         Meu amigo, o Pr. Ariovaldo  Ramos, em seu texto já publicado aqui, desabafou: ”Não quero mais ser evangélico!”. Pedindo licença, agora é minha vez: “Quero voltar a ser um cristão!”
PS: Para aqueles que ignoram o significado da palavra, cristão que dizer pequeno Cristo.Precisa mais?

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