Nesta semana, quem nos brinda com um
texto muito esclarecedor é o Rev. Augustus Nicodemos Lopes. Que cada um
de vocês possa lê-lo com atenção e cuidado, assimilando aquilo que ele
nos passa através de uma análise cuidadosa e muito criteriosa da
apostasia que vem, sutilmente, se disseminando no meio evangélico.
Pra. Maria Luísa Duarte Simões Credidio
À NOITE, TODOS OS GATOS SÃO PARDOS...
Rev. Augustus Nicodemus Lopes
Confesso que no fundo de meu coração tenho medo de me tornar como alguns nomes do evangelicalismo brasileiro que abandonaram a teologia e adotaram uma "eteroteologia" (eteros = outro; theos = deus), ou como aqueles outros que hoje aconselham para a morte, após terem sido referencial de conduta e piedade no mundo evangélico.
Rev. Augustus Nicodemus Lopes
Confesso que no fundo de meu coração tenho medo de me tornar como alguns nomes do evangelicalismo brasileiro que abandonaram a teologia e adotaram uma "eteroteologia" (eteros = outro; theos = deus), ou como aqueles outros que hoje aconselham para a morte, após terem sido referencial de conduta e piedade no mundo evangélico.
Tenho medo,
explico, porque vejo que a mesma coisa pode acontecer comigo. Percebo no
fundo de meu coração uma tendência constante para afastar-me de Deus.
Sinto que a tentação para a heterodoxia=e para a liberação total são
perigos reais que me cercam diariamente. Vejo com muita clareza que
submeter-me às Escrituras e crer em Deus é um milagre na minha vida.
Vi a apostasia
acontecer muito de perto ao longo da minha vida. Um famoso professor de
Bíblia do Recife, que foi a pessoa que me encaminhou ao seminário,
abandonou a fé cristã depois de trair a mulher e abandoná-la com nove
filhos. Eu estava no primeiro ano! Três colegas meus de classe, no
seminário, entre os mais brilhantes da turma, hoje nem professam mais o
cristianismo. Um jovem promissor que chegou ao Evangelho por minha
instrumentalidade, e que posteriormente chegou até a estudar no L’Abri,
com Francis Schaeffer, renegou o cristianismo histórico. Uma conhecida
minha, desde a infância, que é missionária no estrangeiro, acaba de
comunicar aos pais que não é mais cristã, depois de começar a viver com
um homem casado. Líderes que conheci e admirei e segui durante os
primeiros anos de minha vida, não deixaram as denominações evangélicas,
mas já não crêem mais
naquilo que me ensinaram.
Há advertências
constantes nas Escrituras contra a apostasia. Apostatar significa
afastar-se da verdade de Deus revelada nas Escrituras, como resultado de
uma mudança de pensamento, e levantar-se em rebelião aberta contra ela.
O que leva uma pessoa a fazer tudo isso, a abandonar a fé bíblica,
seguir a heterodoxia, renegar os valores morais do cristianismo e pregar
a liberação total?
Não pretendo
entrar aqui na delicada questão acerca da salvação do apóstata. Talvez
noutro post eu tente esclarecer os motivos para acreditar que um
apóstata, no sentido real da palavra, nunca foi verdadeiramente salvo.
Creio na perseverança final dos santos, dos eleitos.
O que eu
gostaria é de inquirir acerca dos motivos que levam uma pessoa a
abandonar a fé histórica do Cristianismo, após ter pregado e defendido
essa fé por muito tempo. É evidente que não poderei inquirir aqui sobre
os desígnios misteriosos de Deus. A minha inquirição é apenas
psicológica, espiritual e teológica.
O Novo
Testamento nos dá vários motivos pelos quais as pessoas se desviam da
fé. Na parábola do semeador, lemos acerca dos que creram por um tempo e
depois se desviaram, por causa dos cuidados desse mundo e por causa das
perseguições que começaram a experimentar por causa do Evangelho. São
aqueles que não acolheram sinceramente a verdade para serem salvos. A
eles, o próprio Deus envia a operação do erro e da mentira (2 Ts
2.9-11). Há também os que, depois de algum tempo, passaram a dar ouvidos
a doutrinas de demônios (1 Tm 4.1). Outros, se desviaram da fé para
professar uma doutrina que acharam que era mais intelectual (1 Tm
6.20-21). Com mais frequência, há os que foram levados pela cobiça, como
Judas, Balaão e Demas, que amou o presente mundo. A demora, a
relutância, a indolência e a negligência em romper definitivamente com o
pecado e o erro são causas
prováveis de apostasia, conforme o autor de Hebreus ensina em toda a
sua carta. Ele avisa que a dureza de coração e a incredulidade são
capazes de afastar alguém do Deus vivo (Hb 3.12-13).
Em resumo, os
motivos externos são vários: amor ao dinheiro, orgulho, problemas morais
não resolvidos, vaidade intelectual, falta de coragem para assumir a
verdade e desejo de novidades. A raiz de tudo isso, ao meu ver, é a
falta de um coração regenerado, um motivo que os autores bíblicos estão
sempre prontos a admitir.
O apóstata pode
permanecer muitos anos na igreja e no ministério cristão sem jamais
revelar a apostasia que já aconteceu em seu coração. Outros, assumem a
apostasia e rompem abertamente com a fé cristã histórica, e geralmente
adotam outras doutrinas que mesmo aparecendo com cara de novas e
revestidas de respeitabilidade intelectual, nada mais são que as velhas
heresias teológicas e morais que a Igreja já enfrentou ao longo dos
anos. Eu não me espantaria se por detrás dos grandes desvios teológicos
da história encontrássemos pecados não resolvidos, orgulho, vaidade
intelectual, soberba, dureza de coração e – obviamente – corações não
regenerados. É claro que nunca saberemos ao certo. A história não
registra essas coisas que sempre são abafadas, escondidas e quase nunca
declaradas.
Até onde
entendo, só há uma coisa que mantém o cristão na verdade: o temor a
Deus, a humildade e um coração quebrantado. Os que verdadeiramente se
humilham diante de Deus e tremem de sua Palavra, mesmo que errem em
pontos secundários, que caiam eventualmente em pecados, jamais se
afastarão definitivamente de Deus e da sua palavra. O verdadeiro crente
não pode mais abandonar a Deus. Nem que queira. Nem que em momentos
terríveis diga a Deus que nunca mais o servirá. Ele acaba voltando. O
apóstata vence essa barreira. Ele consegue passar o limite. Ele consegue
pular a cerca. Ele não receia o que poderá acontecer. Pois no fundo ele
realmente não acredita.
A apostasia é
uma realidade muito mais presente nos meios evangélicos brasileiros do
que se deseja perceber. O falso conceito de tolerância, o relativismo, a
falta de convicções doutrinárias, o liberalismo teológico travestido de
ciência, tudo isso favorece um quadro cinza e enevoado onde os
contornos do verdadeiro Cristianismo não são percebidos com clareza. À
noite, todos os gatos são pardos.
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