Aplaudindo a Perícia e a Criatividade
Pra.Maria Luísa Duarte Simões Credidio
Vou contar um história sobre um amigo meu. Durante uma viagem a Suíça, ele e sua mulher, tomaram consciência pela primeira vez das diferenças como outras culturas encaram os artífices e a perícia profissional. Ficaram maravilhados com a qualidade de itens banais expostos à venda. Maçanetas e trincos para janelas, por exemplo, eram de qualidade muito superior à que estávamos acostumados a ver em nosso país. A cultura suíça, logo descobrimos, atribui grande valor a habilidade profissional.
Um dos desapontamentos que me atinge frontalmente no Brasil, é o baixo valor dado à arte e ao trabalho manual. Em grande parte do país, os artífices são considerados pitorescos e relegados a trabalhos exibidos em feiras de artesanato e museus. Exceto pelas escolas médicas e institutos de música e belas artes, somente um punhado de escolas oferece estágios avançados em disciplinas que exigem o uso de mãos habilidosas.
O apóstolo Paulo escreveu ao seus seguidores: "Esforcem-se para ter uma vida tranqüila, cuidar dos seus próprios negócios e trabalhar com as próprias mãos, como nós os instruímos" (I Tessalonicenses 4.11). Claro, esta admoestação foi escrita há vários séculos, mas realmente é uma pena que se perdeu a devida consideração pela perícia manual.
Atualmente o aprendizado em luteria (fabricação e conserto de instrumentos musicais que meu amigo Sebastião desenvolve com extremo perfeicionismo), joalheria, entalhes em madeira, escultura e outras artes e ofícios são difíceis de se encontrar e raramente são considerados uma opção para os estudantes, exceto os mais dedicados.
O estudante que escolher carreira em que é exigido elevado grau de habilidade, geralmente é desencorajado e, ao invés disso, estimulado a se voltar em direção a atividades mais intelectuais. Em conseqüência, somente os que não são considerados aptos para uma faculdade é que são motivados a aprender um ofício que envolva o uso das mãos. Se você quer um emprego bem remunerado é a informação dada a formandos não perca tempo aprendendo arte manual.
Por isso, as profissões que exigem elevados níveis de perícia, treinamento e experiência, estão desaparecendo rapidamente. Somente um pequeníssimo número de pessoas hoje em dia tem habilidade para fazer violino, lapidar diamante ou restaurar quadros. Isso é ruim?
Já foi dito e eu concordo que nossa qualidade de vida é determinada pelas habilidades que possuímos. Como alguém já expressou, "o operário trabalha com as mãos; o artesão, com as mãos e a cabeça; o artista, com as mãos, a cabeça e o coração". Segundo essa definição, todos deveríamos nos esforçar para ser artistas.
Grande parte desse problema é econômico. Muitas vocações que demandam habilidades mais desenvolvidas oferecem baixa compensação em comparação ao tempo e esforço gastos no seu aprendizado. Operários da linha de montagem de uma indústria automotiva, por exemplo, ganham mais do que artífices que restauram carros antigos, embora o nível de habilidade exigido na linha de montagem seja muito menor. O operário da montadora pode receber treinamento suficiente em questão de horas, enquanto os conhecimentos e a perícia necessários para a restauração de um carro antigo levam anos para ser adquiridos. Olhando por outro ângulo, não é correto que quem prepara contratos ganhe mais do que quem escreve lindas canções?
Não há soluções fáceis. Afinal são atitudes e valores da sociedade. Valorizamos eficiência e produtividade, mais que criatividade e perícia. Não é de admirar, portanto, que soframos as conseqüências, como queda na qualidade dos produtos que compramos, na música que ouvimos e na arte que está ao nosso redor. Poucos hoje sabem como consertar o som de um carro. A maioria sabe substitui-lo por um novo.
Deus, o Criador, dá grande valor à criatividade. Se Ele nos dá o desejo de criar coisas maravilhosas com as mãos, não importa que forma elas tomem, devemos nos esforçar para desenvolver a competência que nos permita fazê-las bem.

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