MAIS UMA VEZ, A PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO

 

Pra. Maria Luísa Duarte Simões Credidio


‘’Meu pai, pequei contra o céu e contra ti também. Eu não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus empregados." 

Lucas 15:18,19

 

 

     Eu acho a parábola do filho pródigo uma verdadeira obra prima registrada no Evangelho de Lucas. Aliás, só no dele. Essa parábola excepcional, talvez a mais comovente narrada por Jesus, traz em seu bojo a imaginação criadora de uma invejável vocação de ficcionista. Creio que muitos escritores dariam o sangue para tê-la escrito! E ao longo dos séculos, quantos gênios não se inspiraram nela para suas obras? Posso citar entre eles André Gide, Debussy, Rembrandt, Prokofiev e tantos outros.

     O que me faz abordar este tema mais uma vez, foi a pergunta de um irmão. Ele me arguiu porque aquele pai disse ao seu primogênito, após aceitar o filho pródigo de volta, "Tudo que é meu é seu"Lc 15:31. Bem: aqui cabe primeiramente uma explicação legal: naquela época, o primogênito, por lei, herdava 2/3 de tudo que o pai possuía. O resto era dividido entre os demais irmãos. Então, se o filho pródigo já havia levado sua parte, levara 1/3, restando àquele pai exatamente os 2/3 que a lei mandava que por herança passasse ao primogênito. Tomada essa situação ao pé da letra, TUDO que aquele pai tinha, era do primeiro filho, ou seja, seria herança dele. Mas deixando de lado a abordagem legal, que já explicita na resposta, talvez aquele pai tenha tentado dizer ao seu primogênito: você nunca me pediu nada, tudo o que tenho é seu e pode fazer de meu patrimônio o uso que quiser. Talvez ele tenha tentado mostrar a esse filho que tratava os dois com igualdade, com paridade, concedendo-lhes o que lhes era cabido, uma vez que pedido ou requisitado.

      Explicado isso, fico a  divagar sobre essa parábola. Penso: será que se tivesse se dado bem na vida, o filho pródigo teria voltado? E aí me vem à mente as palavras de Gustave Thibon, um pensador católico, em sua obra La Crise Moderne de L'Amour. São palavras incisivas, que nos levam a uma outra dimensão dessa parábola. Diz ele:

     " É justo que quem decide violar a lei receba o contragolpe da sua revolta. Sem perfilhar o provérbio espanhol que diz ' Faz o que tu queres, paga o teu preço e Deus te ajudará' , acreditamos que quem assume todas as consequências do seu erro já traz consigo um germe da graça e do perdão. Ou bem você seja frio, ou bem seja quente... Se o filho pródigo, depois de deixar o pai, houvesse investido seu capital em valores de lucro garantido e se entregado a uma cautelosa libertinagem, não teria jamais regressado à casa em que nasceu. Há qualquer coisa pior que o pecado: é o desejo fraudulento de juntar dois proveitos num saco só; é querer acumular o prazer da queda com as vantagens da virtude, a embriaguês da anarquia com os benefícios da ordem. Neste jogo, tudo o que pudesse restar de nobreza e profundidade no pecado se evapora instantaneamente."

     A volta do filho pródigo, como as demais parábolas desta fase, simboliza no espírito de Jesus o repúdio à presunção de virtude, em favor de uma humilde consciência do pecado, capaz de levar ao único caminho da salvação: o arrependimento".

     Para mim, esse o grande "X" da questão, que Jesus quis nos passar.


OREMOS: Pai, que tenhamos consciência  daquilo que o Senhor nos oferece. Que nunca sejamos cobiçadores daquilo que ainda não nos pertence. E como nessa parábola, lhe pedimos que toda vez que errarmos possamos ser perdoados por ti e por quem magoamos. Afasta-nos da ganância mundana e mantém-nos junto ao Senhor, em nome de Jesus!

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